José António Rousseau

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José António Rousseau - Portal da Distribuição 26/02/2026

O ESPECTÁCULO DO MUNDO

Sentado, confortavelmente, no sofá da minha sala, assisto todos os dias, ao lamentável espetáculo do mundo e, nas sábias palavras de Shakespeare, à representação dos seus atores, no palco da vida. A televisão de hoje, através dos seus múltiplos canais, nacionais e estrangeiros, generalistas ou informativos, como num teatro, levanta o pano e permite-nos ser, na plateia das nossas casas, espetadores de tudo o que se passa no mundo. Os cenários são quase sempre os mesmos: o nosso país, os EUA, Israel e a palestina, a Ucrânia, a Rússia, o Irão, a China e muitos outros, mas, no fundo, o guião repete-se e parece ser sempre o mesmo.
Os atores deste palco global são políticos que discursam com ensaiada solenidade, comentadores que interpretam os acontecimentos como críticos de arte apressados, celebridades que desfilam vidas polidas até ao brilho da ficção. Especialistas de tudo e de nada, comentadores com ou sem partido, oferecem-nos as suas versões, sempre “definitivas”, dos factos e acontecimentos diários. Há também a gente anónima entrevistada, surpreendida pela câmara no momento exato em que a sua dor ou a sua alegria se tornam conteúdo mediático. Cada um destes atores desempenha o seu papel, sob a luz intensa dos focos, sabendo ou aprendendo, que a visibilidade, o seu pequeno momento de fama é, simultaneamente, poder e fragilidade.
A televisão transforma a realidade em narrativa. Recorta, enquadra, seleciona. Um conflito distante torna-se num drama; uma tragédia complexa cabe num rodapé apressado. Como espectadores, emocionamo-nos, indignamo-nos, partilhamos opiniões. Mas raramente nos perguntamos quem escreveu o texto, quem escolheu o ângulo, quem decidiu que aquela história, e não outra, merecia abrir o telejornal. Assistimos, julgamos, mudamos de canal e somos públicos, mas também figurantes. O palco estende-se para lá do ecrã com excesso de dramatização, encenações manipuladoras e entretenimento, em vez de informação.
Todos reconhecemos ser a televisão um dos meios de comunicação com maior impacto, na forma como percebemos o mundo, não obstante o crescimento da internet e das famigeradas e tóxicas redes sociais. Mas, a televisão também pode exercer uma influência negativa, pela forma como as notícias são apresentadas enfatizando o sensacionalismo, privilegiando acontecimentos violentos ou polémicos para captar audiências, podendo criar uma perceção distorcida da realidade, levando-nos a acreditar que o mundo é mais perigoso ou caótico do que realmente é. Ah! como os jornalistas amam o escândalo e cheiram o sangue das notícias! E, é essa é a razão pela qual, raramente, ouvimos noticias de conteúdo positivo e de coisas boas que aconteçam no mundo porque, para o jornalismo dos nossos dias, quanto pior o teor das notícias, melhor.
Um facto, é que todos os dias, nos diversos canais de informação, somos brindados com horas e horas consecutivas de fogos, incêndios, inundações, desastres, acidentes, crimes, violência, dramas em figuras de gente, comentário político e desportivo até à exaustão. É esta uma maldição que, pacifica e acriticamente, aceitamos quase como cúmplices. Mas também é um privilégio poder assistir aos Jogos Olímpicos, quer de inverno como os que estão agora a decorrer, quer os de verão, a concertos clássicos e óperas de todo o mundo que diariamente vejo na Mezzo, a jogos não só de futebol, mas de muitas outras modalidades que vejo na BTV, assim como a reportagens e debates nas principais cadeias de televisão mundiais.
Na verdade, a nossa opinião forma-se e molda-se ao que vemos, ouvimos e lemos, como escreveu Sophia e não podemos ignorar. Sim, não podemos ignorar, mas deveremos possuir a sabedoria de relativizar e ter o necessário desprendimento face a todo este espetáculo. Mas, infelizmente, existem situações sobre as quais é muito difícil, senão impossível, ter o necessário desprendimento. Refiro-me, por exemplo, à invasão da Ucrânia pela Rússia que perfaz esta semana quatro longos anos. Quatro longos anos de atentados noturnos, diários e criminosos contra civis nas suas cidades. Quatro longos anos de uma gloriosa e corajosa resistência de um povo a defender a sua independência política e territorial. Quatro longos anos de infindáveis sacrifícios pessoais e coletivos, de destruição de casas, escolas e estruturas energéticas, de separação de famílias, morte de crianças nas cidades e de jovens na frente de batalha. Quatro longos anos de provocações e desconsiderações por parte não só do invasor, mas também daquele que deveria ser o seu maior aliado, os EUA, que acaba por sistemática e incompreensivelmente, fazer o jogo do invasor. Como é que o país que era o farol do mundo da liberdade, da democracia, da defesa dos direitos humanos e o mais feroz opositor das ditaduras, se deixou enredar nesta teia de cedências, apoios e negociatas com as piores pessoas do mundo? A resposta, muito à americana, tem apenas três palavras: Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro. Mas, se tiverem dúvidas, leiam, escutem ou vejam o último, discurso de Donald Trump que ao longo de duas horas, foi a palavra que mais vezes, incansável e avidamente, pronunciou. Sim, vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.

José António Rousseau - Portal da Distribuição José António Rousseau. Depois de trinta anos como Director Geral da APED e de vinte como professor de Marketing no IADE, IPAM e ISEG

José António Rousseau - Portal da Distribuição 20/02/2026

LIVRAI-NOS DO MAL

Ao longo da história da humanidade, o bem e o mal têm sido conceitos centrais na forma como pensamos, organizamos a sociedade e damos sentido à nossa existência como seres humanos, tendo ambos sido transformados pelo tempo, moldados pelas religiões, refletidos pelas correntes filosóficas e lapidados pelas dinâmicas sociais de cada época.
Do ponto de vista religioso, o bem e o mal surgem frequentemente como forças opostas e bem definidas. Nas tradições monoteístas, como o Cristianismo, o Judaísmo e o Islão, o bem está associado à vontade divina, à obediência aos mandamentos e à prática da virtude, enquanto o mal é entendido como afastamento de Deus, pecado ou tentação. Noutras tradições, como no Hinduísmo ou no Budismo, o mal pode ser visto não tanto como uma força personificada, mas como ignorância, apego ou desequilíbrio.
A filosofia, por sua vez, tende a problematizar esta dicotomia. Para Platão, o mal estaria ligado à ignorância e para Santo Agostinho o mal não é uma entidade em si mesma, mas uma privação do bem. Outros pensadores, como Thomas Hobbes, defenderam que o ser humano, no seu estado natural, tende ao conflito, sendo a sociedade e as leis necessárias para conter o mal, enquanto pelo contrário, Jean-Jacques Rousseau via o homem como naturalmente bom, sendo a sociedade responsável pela sua maldade. Mais recentemente, Hannah Arendt introduziu a ideia da “banalidade do mal”, ao analisar como pessoas comuns podem cometer atrocidades sem uma intenção demoníaca, mas por conformismo ou ausência de pensamento crítico.
Socialmente, os conceitos de bem e mal, acompanham as transformações culturais e políticas, uma vez que práticas outrora consideradas aceitáveis, como a escravatura ou a discriminação de género, são hoje consideradas injustas e moralmente erradas. E, do ponto de vista político, o bem e o mal assumem uma dimensão particularmente complexa, pois deixam de ser apenas categorias morais individuais para se tornarem critérios de organização do poder, da justiça e da vida coletiva e onde diferentes visões do bem entram em confronto, podendo o perigo do mal ganhar proporções estruturais.
Nicolau Maquiavel rompeu com a tradição moralista ao sugerir que, na política, o governante pode ter de recorrer a meios moralmente duvidosos para assegurar a estabilidade do Estado, despoletando assim a dilemática questão de saber se o mal pode ser justificado caso sirva um bem maior. Tenho as minhas dúvidas! Aliás, as trágicas experiências totalitárias do nazismo e do estalinismo, demonstraram bem como o mal pode ser institucionalizado, quando o poder deixa de ter limites éticos e jurídicos, deixando a política de servir o bem comum, para se transformar em instrumento de opressão e repressão.
Para evitar tais situações, as democracias modernas procuraram estruturar o poder de forma a minimizar o mal político, através da separação de poderes, do respeito pelos direitos humanos e da participação cívica dos cidadãos. O bem político passou a ser entendido como garantia de liberdade, igualdade perante a lei e proteção das minorias. Na verdade, a história tem ensinado que quando a política se afasta da ética e do respeito pela dignidade humana, o mal tende a expandir-se. Quando, pelo contrário, se orienta pelo bem comum e por princípios de justiça, torna-se uma das mais poderosas ferramentas de transformação positiva da humanidade.
Mas, em rigor, o que é o bem e o que é o mal? Duas faces da mesma moeda? Dois conceitos antagónicos? Perguntas já respondidas anteriormente ou perguntas às quais ninguém ainda conseguiu responder? Perguntas, às quais poderíamos responder, como Santo Agostinho respondia, quando lhe perguntavam o que era o tempo, ou seja, se não nos perguntarem sabemos o que é o mal e o bem, mas se nos perguntarem já não sabemos!!! De uma coisa estou certo. Não são conceitos absolutos nem objetivos, mas conceitos onde impera o relativismo e a subjetividade, revestindo ambos uma natureza maniqueísta e não podendo nenhum deles ser considerado um imperativo categórico. Aliás, na natureza, no mundo animal ou mesmo nas ciências físicas, como sabemos e não discutimos, o bem e o mal não existem.
O bem e o mal são, seguramente, convenções sociais e morais criadas pelo homem, conceitos de natureza dialética e mais um exemplo da luta dos contrários. São, seguramente, dois conceitos de geometria variável, que podem mudar ou ser diferentes, em função da geografia, da história, da cultura ou do tempo. São, seguramente, dois conceitos geradores de múltiplos dilemas morais ou éticos. Mas não tenhamos ilusões, pois seja qual for a evolução da humanidade e o crescimento espiritual dos seres humanos, haverá sempre o bem e o mal. No fundo, tal como na oração do Pai Nosso, aquilo que podemos, humildemente, pedir a Deus é que, ao longo da nossa vida, Ele nos livre do mal, seja ele qual for, do mal que podemos fazer aos outros ou que os outros nos possam infligir.

José António Rousseau - Portal da Distribuição José António Rousseau. Depois de trinta anos como Director Geral da APED e de vinte como professor de Marketing no IADE, IPAM e ISEG

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