11/08/2026
VIAGEM DE VERÃO 2026: MOLDOVA/ROMÉNIA - DIA 1 (8 DE AGOSTO)
Continuando a minha contenção, nos investimentos em viagens, por precauções de gastos e investimentos, devido à nuvem cinzenta da taxa de juros Euribor, reincidi em países mais acessíveis financeiramente e reduzi para nove dias, a minha estadia.
A Moldova e a Roménia fazem parte daquele grupo de países menos abonados da Europa, nem sequer se atrevendo a comparar com os mais desenvolvidos, como Portugal faz, na sua comparação negativa e nociva, com os mais ricos dos ricos.
Se a Roménia encetou uma progressão económica assinalável, desde que se “descortinou” do bloco socialista soviético, a Moldova ainda se mantém na cauda, como o mais pobre da Europa, ainda mais abaixo da Ucrânia e da Bósnia-Herzegovina, não tendo sequer água potável. Além disso, tornou-se comum distinguir, na Moldova, facções políticas, somente entre ser-se pró-União Europeia ou pró-Rússia.
Chegando de manhã cedo, a Chisinau (lê-se Quichinau), capital moldova, fui de táxi com uma rapariga moldova, que vive na Alemanha e que gentilmente me deu sugestões úteis, como a instalação da app Go Yandex, um TVDE local. Ao chegar à cidade, surpreendi-me com o ótimo aspeto geral, da periferia ao centro, mesmo descontando o gosto amargo e austero dos edifícios de habitação social, do tempo do regime socialista. É sempre muito relativo e claramente desvantajoso usar um julgamento precipitado sobre a suposta pobreza da Moldova, que afinal não é assim tão evidente e muito menos questionar quem lá vai e porquê. Já estou habituado…
O fosso entre bairros sociais de classe baixa e de média esbateu-se, no período de equalização social do regime socialista, sendo, por outro lado, expectável, a proliferação atual de edifícios comerciais e habitacionais, bem opulentos, desde a abertura ao capitalismo. Muitíssimo interessante é a renovação de edifícios com não mais de 100 anos, de estatura baixa, em ruas que fazem lembrar cidades americanas, com aquelas estradas típicas, que rasgam geometricamente os seus perímetros urbanos. Cafés de charme, escritórios, imobiliárias, clínicas dentárias e bares de vinho e de cocktails, dominam o panorama desses prédios e casas, que enobrecem a arquitetura de Chisinau.
O apartamento de alojamento local estava numa rua de ótimo aspeto, com um aspeto decente e convidativo. Mal cheguei, deitei-me e dormi das 8 da manhã até à hora de almoço, desejoso que estava de, por um lado, repor energias suficientemente e, por outro, aproveitar o dia na cidade.
A ida ao supermercado foi eloquente, deliciando-me com os queijos e derivados, assim como o peixe fumado e não fumado, que engalanavam as bancas e prateleiras. Pela relativa afinidade com a cultura italiana, seria de esperar encontrar produtos semelhantes, ainda que o queijo brinza se distinga orgulhosamente, em versões compactas, como o queijo feta grego e o haloumi, do Médio Oriente, além de uma versão em farripas, salgadas, como que a servir mais de tempero do que de substrato. O queijo mais improvável que vi, foi um caciocavallo verde, queijo fumado, famoso em Itália, que não comprei, por recear perecer, ainda que o possa fazer, no dia do regresso a Lisboa.
No apartamento, quando comia fruta e preparava uma mistela proteica de tofu fumado, com nozes em vácuo, azeitonas verdes, farripas de brinza, e tomate cereja, com rega de azeite, provei, com surpresa, uma água com gás, que tinha um travo salgado e muito curioso, que me agradou. Aprontei-me depois para a visita às caves de vinhos de Milleşti Mici (lê-se Milechti Mitchi), já em cima da hora.
O lindíssimo jardim central de Chisinau ficava em frente ao apartamento e deu-me uma paz e serenidade que não é habitual, nalgumas das minhas viagens de verão. Apelei às minhas expetativas, para se alinharem com a escolha contida que fiz, de estar num país e cidade tranquilos, de relativa proximidade civilizacional, ainda que já me tenha espantado com locais também pacíficos, em países infames.
Quando cheguei à estação central de autocarros, ainda pensei em ir de mashrutka (carrinha de transportes dos países da ex-União Soviética), mas não dava tempo de chegar à excursão, por isso, chamei um Go Yandex, que estimava antecipadamente 192 lei (9€) de viagem, até às caves de vinhos. O condutor enviou-me uma mensagem, dizendo que eram 600 lei e de imediato cancelei a viagem. Apanhei um táxi por 300 lei. Impressionante, a vigarice de um condutor de TVDE, na Moldova.
Cheguei a Mileştii Mici 5 minutos antes dos carros da excursão arrancarem, ao meu puro estilo em cima da hora. A guia da excursão, em jeito de general, confirma os nomes e arrancamos túneis adentro, entrando nas mais inesperadas e impressionantes caves de vinho, que poderia imaginar. O frio (14°C) e humidade (85%) eram notórios, não me arrependendo, porém, de não ter vindo agasalhado. Aliás, havia cobertores finos disponíveis, que foram suficientes para me confortar, com a cabeça a refrescar, sabendo-me lindamente.
São 55 quilómetros contínuos, de túneis subterrâneos, com 1,5 milhões de garrafas, que amadurecem nas melhores condições possíveis e à prova de terramotos. A guia assegurou que, apesar da Moldova ter ocasionais tremores de terra, as caves de Mileştii Mici sempre se aguentaram. Orgulhou-me, ouvir da guia, que a cortiça das rolhas é portuguesa. Quer antes, quer no início da excursão, previ haver algum pânico claustrofóbico, que afinal se desvaneceu, durante a excitação de ver e sentir os carros endiabrados, pelos cotovelos subterrâneos e de partilhar alegrias com outros visitantes.
Confesso que pensava haver mais tempo de visita, antes da comida, que afinal se intercalava com a prova dos vinhos. Como escolhi um pacote mais exclusivo, tive direito a uma refeição mais abundante, o que por outro lado me fez estranhar o isolamento, em relação a outros visitantes. Havia dois tipos palestinianos de Israel, com quem falei de esguelha e interagi muito agradavelmente, renovando diversos convites em virem a Portugal.
O primeiro vinho era um branco Sauvignon Blanc, de 2025, não desiludindo assim tanto, dado eu esperar a baixa fasquia da sua degustação. Cheiroso e manhoso de doçura e sustento no paladar, sendo adequado a circunstâncias mais impulsivas e não a apreciações mais profundas e essenciais. O segundo branco era um majestoso 1987, com uma secura e nobreza opostas à intrepidez fútil do anterior. Foi sensata a escolha do rosé, a seguir, para que os sentidos pudessem ter apreciado com mais plenitude o auge da prova, que foi o segundo branco.
Da comida ali disponível, destaco as folhas de videira, recheadas com arroz, que também encontramos na Turquia e no Cáucaso, galantines com azeitonas, que ligavam também muito bem com a rega e os sarmale, folhados excecionais, típicos da Moldova, recheados em versões diferentes, com batata esmagada e também com couves amargas (sauerkraut), parecidos com o burek argelino, mas menos estaladiços, bem como com o strudel húngaro.
O primeiro tinto, Merlot, nem precisou de muita adjetivação, com uma doçura exagerada e plena de manha, para delícia do público afeto a estes tintos imediatos. Não me encaixava num prato principal, nem numa sobremesa, valendo, logo a seguir, o tinto 1988, excecional, que salvou as expetativas da prova, com uma harmonia mais consensual, com a sua suposta vocação de sustentar um repasto mais consistente.
O vinho de sobremesa foi o meu segundo preferido, encarando-o num propósito mais específico, ao enquadrar-se com um doce discreto e não demasiado intenso, além de relativizar a sua distância em relação a um vinho de prato principal. Feitas as contas e as relativizações, superou o segundo tinto. O espumante estava muito ajustado nos aromas levemente ácidos, que se interligavam bem com um toque timidamente “sacaroso”, que aguentava bem o bolo de chocolate da sobremesa. Esperava sinceramente mais deste evento, mas mesmo assim, saldei-o positivamente.
Estive algum tempo no apartamento, a debater-me entre uma noite contida ou uma noite generosa, tendo escolhido a segunda versão. Cheguei ao bar de rock Rockovoy e senti-me em casa, com a habitual parafernália de referências aos principais artistas da onda, com destaque para uma foto do cartaz do concerto de Black Sabbath, minha banda preferida, em Nova Iorque, na digressão de 1975, do soberbo álbum Sabotage.
Mudei depois para uma toada mais glamourosa e fui ao Covor, suposto bar de cocktails mais renomado de Chisinau. Tinha ótimo aspeto, não necessariamente opulento, mas de uma ténue sofisticação industrial. Pedi um cocktail apaixonante, que bebemos para celebrar a vida, com ternura: Inima Nucatei. Licor de noz, vermute rosso, Campari, romã e noz envolvida em chocolate, por cima do cubo de gelo. Sem palavras! Segui para um bar, parecido com a Pensão Amor, no Cais do Sodré, em Lisboa, misturando som comercial com som improvável e desconhecido. Ouvi o clássico do dance kitsch, Dragostea Din Tei, dos O-Zone, que fez furor mundialmente, em 2003, continuando a conquistar novas gerações, com a sua assumida faceta pirosa e bem disposta.
Segui para uma discoteca, no mais puro estilo piroso armado em sofisticado, uma espécie de Lux Frágil, com curadoria sonora de um músico pimba, super divertida e nada de se levar a sério. Em frente, havia um clube de karaoke, de aspeto muito cuidado, minimal, elegante e bem apetecível, de se passar o resto da noite. Pedi para cantar a épica power ballad dos Meat Loaf, I’d Do Anything For Love (But I Won’t Do That). A tromba de leste europeu do animador do karaoke, dizendo que levaria uma hora, para que eu cantasse, pôs-me em sentido. Na verdade, esperei duas horas, de cara a cara, a olhar para o animador, próximo de cantar, com ar de quem sabe que foi engrupido por ele, que deixou passar imensa gente à minha frente.
De êxitos ultra pimba, a hip-hop do mais gângster demoníaco que pode haver, fiquei a conhecer bastante dos extremos musicais russos. Os moldavos dividem-se em pró-romenos e pró-russos. Naquele bar, senti a Rússia em peso, até que um tipo moldavo e um israelita, cinquentões como eu, olharam para o ecrã e ficaram espantados, levando com uns devil horns meus, saudando o momento de rockalhada que estava para vir. O animador pôs uma versão mais aguda desta canção, quase fazendo estoirar as minhas cordas vocais, saindo bem, no entanto, embora em dificuldades para cantar o estrondoso semi-falsete da Lorraine Crosby. Tinha sido a primeira vez que a cantei, com a malta cota a cumprimentar-me, no fim e em alívio quase diurno, com a luz do dia em perspetiva. A tromba do animador de karaoke fez lembrar a do guarda fronteiriço do vídeo da Nikita, do Elton John, quando lhe dá a nega.
Com ópera rock encerrei um dia pleno de vida!