Hugo Loureiro Tailor Made Training

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Treino de postura, movimento e alívio, em ambiente requintado.

Photos from Hugo Loureiro Tailor Made Training's post 25/08/2026

DIA 4 VIAGEM DE VERÃO 2026: MOLDOVA/ROMÉNIA - (11 DE AGOSTO): IAŞI (ROMÉNIA)

Ao chegar à gare central de transportes de Chişinau, nem tinha reparado que já tinha comprado bilhete online, com partida da gare sul, não me lançando, no entanto, culpas, pelo esquecimento logístico. O condutor da mashrutka era claramente inapropriado de simpatia, com um semblante quase que a roçar a xenofobia, de ver um estranho que não fala a sua língua. As estradas moldavas, endiabradas e pouco cuidadas, de texturas acidentadas e estranhamente sinuosas, numa região relativamente plana, faziam-me recair numa realidade oposta, que é a de Portugal, com mais auto-estradas por metro quadrado, que muitos países mais desenvolvidos.

As paragens de uma hora, na fronteira romena, foram penosas e mais morosas do que toda a logística fronteiriça Portugal-Espanha, pré-CEE. Com esta demora, mais o estado um pouco sofrível das estradas, fiz uma viagem de duzentos e tal quilómetros em quase quatro horas, em sintonia com as nove horas, de Bragança a Lisboa, cantadas pelos Xutos & Pontapés. As estradas romenas já eram bem mais aceitáveis e o fluxo da viagem intensificou, diminuindo virtualmente a distância efetuada, desde a fronteira até Iaşi.

Reparei, de imediato, na enorme diferença de aspeto e cuidado urbanos, entre Iaşi e Chişinau, além da muito menor influência soviética, sobretudo na não tão abundante largueza de avenidas. Há muito mais edifícios apalaçados e de bom aspeto, além de igrejas ortodoxas, de grande porte e elegância. Hotéis em edifícios antigos, o Teatro Nacional e monumentos religiosos, como a Catedral Metropolitana, uma igreja contemporânea, católica, ali adjacente e, ao fundo, o muito imponente e belíssimo Palácio da Cultura, transparecem a muito superior prosperidade económica da Roménia, em relação à Moldova.

Do tempo que usei para me estabelecer no alojamento e para as visitas às igrejas acima referidas, sobrou-me somente visitar as galerias e corredores gigantes, do Palácio da Cultura. Os vários museus, ali congregados, ficariam para o dia seguinte. A imensa sumptuosidade deste palácio, por dentro e por fora, com misturas de estilos arquitectónicos, embora de predominância neo-gótica, do século XIX, cuja mais recente incarnação, data dos anos anos vinte do século XX, conquistou-me e alertou-me para o imenso legado monumental que a Roménia detém.

Na realidade, não basta retrospetivar o Império Austro-Húngaro, mas também o próprio Reino da Moldávia, região romena, em que se insere Iaşi, para atribuir glória histórica a esta lindíssima cidade. Daqui se depreende, então, a distinção entre Moldova, país e Moldávia, região romena, tal como, Macedónia do Norte, país e Macedónia, região grega, assim como Países Baixos, país e Holanda, região neerlandesa.

Escolhi jantar no emblemático Cârciuma Veche, de gastronomia genuinamente local e com muitas histórias e ilustres, que ali comeram, como o atesta uma foto da maior lenda do futebol romeno, Hagi, que jogou, no final dos anos oitenta, no Steua de Bucareste e no Barcelona. Um fora de série, como uma vez disse Rui Cartaxano, histórico jornalista português, antigo diretor do Record.

A pasta de tomate, comida à colherada, de entrada e a sopa de feijão, eram assumidamente semelhantes às que tinha provado no La Plăcinte, mas com nuances, no aroma e na textura. A língua de vaca estava bem enervada e esperava mais, embora me tenha apercebido que a sua textura era quase crocante, talvez pela forma como foi cozinhada. Acompanhava com polenta de milho, a instituída mamaliga, que representa o papel do arroz romeno e moldavo. De sobremesa, comi uma sóbria panqueca de mel e nozes, em duas porções distintas: uma enrolada e outra em forma de guardanapo. Dado o jejum, feito naquele dia, até ao jantar, nem me lembrei de beber algo, deixando-o para mais tarde.

Fui a um bar de cocktails, o Oddity, com uma oferta atrativa e pedi uma bela mistura de sabores noz, com um traço alcoólico delicado. Em cima tinha uma “hexícula” de favos, que comia, intercalando com a bebida, num estímulo constrastante, que sempre apreciei sentir. Notando como Iaşi é muito mais calma do que Chişinau, pela grande quantidade de recintos notívagos fechados, ainda assim, consegui ir ao Rock’n’Rolla, num descampado intimidante, com latidos de cães de rua, por perto, mas que alcancei. As vénias às expectáveis lendas do rock e do metal, em pósteres, foram cumpridas, escusando-me a dizer quais. Travei simpáticas conversas com outros clientes e com o anfitrião, que passou a The Chain, dos Fleetwood Mac, pedida por mim, a convite dele, em escolher uma canção. Ao deitar, para uma noite tranquila, vedei com edredãos as janelas do apartamento, que deixavam entrar imensa claridade, quando lá tinha chegado e reparado, de dia.

Photos from Hugo Loureiro Tailor Made Training's post 20/08/2026

VIAGEM DE VERÃO 2026: MOLDOVA/ROMÉNIA - (9 E 10 DE AGOSTO): DIAS 2 E 3 - CHIŞINAU E TIRASPOL (TRANSNÍSTRIA)

Depois de um dia cheio e em cheio e de me ter deitado com as galinhas a acordar, sabia que não iria aproveitar tanta energia diurna. Decidi então visitar locais Icónicos da cidade, preferentemente ao ar livre. Comecei pela Catedral Metropolitana, no jardim em frente ao meu alojamento. Típica igreja ortodoxa, com menos simbologia mártir, como acontece na católica, com tetos e paredes muito preenchidos de vários motivos e figuras divinas. Diria mesmo que é uma ornamentação mais maximal do que a das igrejas católicas, que já de si são opulentas.

Fui aos dois parques principais de Chişinau, Valea Morilor e Dendrariu e fiquei muito bem impressionado com o trato dado ambos. Muitíssimo bem arranjados e com um panorama cénico sobre uma lagoa convidativa, que se ficou a rir de mim, por não ter trazido calções de banho. Estava uma quantidade apreciável de gente, na areia importada para o efeito, além de uma turma enorme de atletas de triatlo, que mergulharam em conjunto, dando início ao seu treino de natação, num momento raro de se ver e de se apreciar, principalmente para quem aprecia exercício físico e desporto, como eu.

Mais tarde, afinei demasiado a minha escolha para o jantar e fui a um restaurante de hotel, muito bem decorado e conceptualizado, para otimizar, o que agora se usa, de forma ostensiva e aborrecida, o termo “experiência gastronómica”.

Deixei para o dia seguinte um proveito mais aprofundado e aventureiro do que o deste dia, a que não chamaria de ressaca, mas antes, contido, dado o cansaço acumulado de uma viagem noturna de avião.

Acordei um pouco prematuramente, no conflito entre o desejo de mais descanso e a vontade de aproveitar o dia, numa indecisão causada pela desculpa de adormecer mais tarde, por ter duas horas de diferença a mais, de fuso horário. O foco no despacho doméstico era óbvio, para evitar perder a mashrutka para Tiraspol, na Transnístria e aproveitar a visita. A mashrutka estava cheia de trombas eslavas russas, parecendo-me que estas pessoas de Tiraspol foram a Chişinau abastecer-se de vida, raciocinando retroativamente, tendo em conta o que vi de Tiraspol.

Sabendo que era necessário passaporte, mesmo sendo uma região da Moldova, dada a sua autonomia e ligação à Rússia (a maioria da população é russa), assim que chegámos à Transnístria, senti aquele desconforto de outras viagens de combate, que me levavam a tirar o passaporte, com frequência, numa mesma viagem. Apesar da alusão às fronteiras de Portugal com a Espanha, até 1986, acabou por ser relativamente simples e não muito demorado, embora nós, passageiros, tenhamos tido que sair da camioneta e apresentar os passaportes num posto específico.

À chegada a Tiraspol, lembrei-me de que tinha que trocar lei moldavos por rublos transnístrios, além de que não dispunha de roaming da União Europeia. Com a agravante da bandeira linguística e da tromba russa, de pessoas dos serviços comerciais, senti o desconforto a aumentar. Sabia, no entanto, que era somente um dia e que domino relativamente bem o alfabeto cirílico, mas o pior de tudo é que o check in do alojamento seguinte, em Chişinau, era de tarde e nem sequer me dei ao trabalho de pensar eventualmente ser possível deixar lá antecipadamente a mochila de 8 quilos e as 3 garrafas de vinho, de 2 quilos. Na estação de camionetas de Tiraspol não era permitido guardar pertences e por isso foi uma visita penosa, a Tiraspol, num dia de algum calor, a rondar os 30 graus à sombra.

Mesmo ao lado das camionetas estava um parque gigante, de estilo soviético, com um portão exageradamente amplo e evidente e ao fundo, no outro extremo, uma estátua de um herói histórico, com símbolos soviéticos e algumas bandeiras, destacando-se a da Transnístria, verde com tira horizontal vermelha, ao meio e ao lado uma bandeira da Rússia. A Transnístria, como referi antes, é uma região socialista, com a exata ideologia da União Soviética, embora pró-Putin.

Entrei numa igreja ortodoxa, de cúpulas douradas, como vemos na Rússia e confirmei que não havia uma única frase em moldavo, mas somente em russo, além de ver pessoas com traços étnicos russos. À porta, estava um Lada, dos anos 80, fazendo-me confirmar que seria como estar na Rússia. Pousava e carregava a minha mochil de vez em quando, para não me desgastar muito, mas ao fim de algum tempo , de tento andar, já me sentia incomodado. Ia bebendo a água da garrafa que tinha e esperançava duplamente, em esvaziá-la, para não me pesar tanto e em não ficar com vontade de urinar.

Mais à frente, durante o meu percurso pela avenida principal de Tiraspol, deparei-me com o edifício administrativamente mais importante da Transnístria: o Palácio Soviético, Dom Sovetov, como estava escrito no topo da entrada monumental. À frente, um esclarecedor busto proeminente de Lenine. Não eram permitidas visitas e, claro, sem simpatia no esclarecimento em russo.

Ainda com forças, mas claramente com cansaço avançado, resolvi entrar numa livraria/papelaria, que muito me recordou assa minha infância. A mulher que atendia falava inglês e mostrou simpatia, mostrando souvenires regionais, completamente “sovietizados”, que acabei por comprar, deliciando-me, entretanto, com um gato com ar muito ressacado, que ali dormia refastelado, numa mesa, com um papel que dizia para lhe darmos dinheiro, para comida. Fui depois refrescar-me no ar condicionado de um pequeno centro comercial, entrando num café, onde fui à casa de banho e pedi uma água com gás. A miúda que me atendeu chegou a esboçar um sorriso cordial e surpreendido, por ver um turista na Transnístria. Aliás, encontrei uns quantos viajantes, curiosamente mais espanhóis do que qualquer outra nacionalidade, com um perfil claramente aventureiro e fora do circuito de viagens confortáveis.

Ao ter sido previamente informado, pela rapariga da estação de transportes de Tiraspol, de que só comprava o bilhete de regresso a Chisinau, próximo da partida, preferi encaminhar-me para lá, aliviado com o repouso de transportar a mochila e o s**o das garrafas. No momento da partida, havia viajantes polacos, todos novíssimos, prontos para conquistar o mundo eleito por eles, para ser explorado.

Para o jantar, escolhi o famoso e popular La Plăcinte, bom e acessível, com pratos representativos da gastronomia moldava. Comecei com uma mistura esmagada de tomate, com outros vegetais, um pouco adocicada, que estava ótima, para abrir o programa. Como é meu hábito, desde há mais de dez anos, comi sem pão e à colherada.

Veio depois uma ciorbă, no caso de legumes, que considero mais caldo do que sopa, isto em termos de base, cuja intensidade de sabores, através da paprika e outros aditivos aromáticos, dá um paladar consistente, fazendo esquecer o “template gastronómico” português, da sopa com uma base espessa. Vinha com natas azedas, em formato pasteleiro, tipo crème fraiche, que usei somente umas poucas vezes.

O auge do jantar foi um pudim de arenque, com clara de ovo e gema cozidas e esmagadas, com cenoura, beterraba e maionese. A articulação de sabores, texturas e contrastes valorizou imenso o jantar, tendo dito ao miúdo que me serviu, que podeis comer cinco pudins destes, de tão estrondosamente delicioso que estava.

Em estado avançado de degustação, havia espaço para mais uma delícia, que foi o sarmale, neste caso, rolos de couve, recheados com arroz e base de molho de tomate, também típicos da Moldova. Era de repetir, as pudesse, mas ainda queria comer a sobremesa com discernimento no estômago e no paladar.

Veio depois uma plăcinte, que nomeia o restaurante e que se aproxima do universo das empanadas espanholas e argentinas. Neste caso, a massa é mais atrativa, de uma delicadeza que faz sobressair a nobreza nem sempre consensual das couves azedas, que também se come na Alemanha e que chamam de sauerkraut. Estava divinal.

Pedi, de sobremesa, tarte Napoleão, que suspeito dever o nome à pastelaria francesa, como aliás reparei em vários doces, que vi nos cafés da capital moldava. É da família do bolo de bolacha, curiosamente oriundo da França, neste caso, adaptado à realidade gastronómica moldava e parecido com o bolo de mel ucraniano, com creme de natas intercalado em camadas, separadas por uma base de tendência “bolacheira”. Sem deslumbrar, consolou e rematou bem este jantar maravilhoso.

Nesta altura, já tinha acumulado uma reflexão surpreendente, quer em relação aos parques, quer em relação ao restaurante, cuja comida, mais “romenizada” do que “russificada”, me deu a perceber que os moldavos são muito mais russos, de língua e cultura, do que romenos. Por mais anúncios e outras publicações, em romeno, talvez a querer esquecer, ou não, o passado soviético, o que é facto é que o russo predomina, eventualmente por maior simpatia para com a prosperidade da Rússia, em relação à Roménia, dada a necessidade de desenvolvimento da Moldova. Na prática, é quase que um enclave russo, entre a Roménia e a Ucrânia, tal como o é, Kalininegrado, entre a Polónia e a Lituânia.

Mais tarde, explorei bares de cocktails e fui ao Casaroz, que me apaixonou, em todos os sentidos. De decoração propositadamente pouco polida e de tons neutros, nas paredes, grosseiramente pintadas, escurecidas por luzes vermelhas, tinha um ambiente super cinematográfico, com uma seleção musical fabulosa, entre sons mais electrónicos e sons castiços do antigamente, num estilo improvável e muito cativante. Tinha diferentes escolhas de ambiente, desde a barra, onde se interage melhor com os outros clientes e, acima de tudo, com o staff, aos recantos românticos, a uma sala de estilo privado, mais exposta e dois espaços exteriores diferentes entre si: um, com mesas perfiladas e outro, num estilo rústico e despretensiosamente fascinante.

Um dos miúdos que servia, explicou-me que o dono do bar viveu alguns anos nos Estados Unidos e trouxe de lá uma enorme bagagem criativa. Reparei que um dos cocktails se chamava saudade e referi-o, orgulhosamente, ao miúdo que atendia. Pedi um cocktail forte e intenso, com um cubo de gelo, que tinha uma poça, onde cabia outro dos ingredientes. Vi que outro cliente esperava um cocktail preparado para ele, segundo o barman, com clara de ovo e açúcar braseados, com efeito crème brulée, fazendo-me pedir-lhe o mesmo. O que mais me surpreendeu foi conhecer um bar de ótima qualidade, com cocktails soberbos a sete euros e meio, no país tido como o mais pobre da Europa. Estava a ser uma constante comparativa, no bom sentido, usar essa referência desprestigiante, que acentuava muito o efeito supresa, de muitos locais e experiências que estava a viver na Moldova.

Photos from Hugo Loureiro Tailor Made Training's post 11/08/2026

VIAGEM DE VERÃO 2026: MOLDOVA/ROMÉNIA - DIA 1 (8 DE AGOSTO)

Continuando a minha contenção, nos investimentos em viagens, por precauções de gastos e investimentos, devido à nuvem cinzenta da taxa de juros Euribor, reincidi em países mais acessíveis financeiramente e reduzi para nove dias, a minha estadia.

A Moldova e a Roménia fazem parte daquele grupo de países menos abonados da Europa, nem sequer se atrevendo a comparar com os mais desenvolvidos, como Portugal faz, na sua comparação negativa e nociva, com os mais ricos dos ricos.

Se a Roménia encetou uma progressão económica assinalável, desde que se “descortinou” do bloco socialista soviético, a Moldova ainda se mantém na cauda, como o mais pobre da Europa, ainda mais abaixo da Ucrânia e da Bósnia-Herzegovina, não tendo sequer água potável. Além disso, tornou-se comum distinguir, na Moldova, facções políticas, somente entre ser-se pró-União Europeia ou pró-Rússia.

Chegando de manhã cedo, a Chisinau (lê-se Quichinau), capital moldova, fui de táxi com uma rapariga moldova, que vive na Alemanha e que gentilmente me deu sugestões úteis, como a instalação da app Go Yandex, um TVDE local. Ao chegar à cidade, surpreendi-me com o ótimo aspeto geral, da periferia ao centro, mesmo descontando o gosto amargo e austero dos edifícios de habitação social, do tempo do regime socialista. É sempre muito relativo e claramente desvantajoso usar um julgamento precipitado sobre a suposta pobreza da Moldova, que afinal não é assim tão evidente e muito menos questionar quem lá vai e porquê. Já estou habituado…

O fosso entre bairros sociais de classe baixa e de média esbateu-se, no período de equalização social do regime socialista, sendo, por outro lado, expectável, a proliferação atual de edifícios comerciais e habitacionais, bem opulentos, desde a abertura ao capitalismo. Muitíssimo interessante é a renovação de edifícios com não mais de 100 anos, de estatura baixa, em ruas que fazem lembrar cidades americanas, com aquelas estradas típicas, que rasgam geometricamente os seus perímetros urbanos. Cafés de charme, escritórios, imobiliárias, clínicas dentárias e bares de vinho e de cocktails, dominam o panorama desses prédios e casas, que enobrecem a arquitetura de Chisinau.

O apartamento de alojamento local estava numa rua de ótimo aspeto, com um aspeto decente e convidativo. Mal cheguei, deitei-me e dormi das 8 da manhã até à hora de almoço, desejoso que estava de, por um lado, repor energias suficientemente e, por outro, aproveitar o dia na cidade.

A ida ao supermercado foi eloquente, deliciando-me com os queijos e derivados, assim como o peixe fumado e não fumado, que engalanavam as bancas e prateleiras. Pela relativa afinidade com a cultura italiana, seria de esperar encontrar produtos semelhantes, ainda que o queijo brinza se distinga orgulhosamente, em versões compactas, como o queijo feta grego e o haloumi, do Médio Oriente, além de uma versão em farripas, salgadas, como que a servir mais de tempero do que de substrato. O queijo mais improvável que vi, foi um caciocavallo verde, queijo fumado, famoso em Itália, que não comprei, por recear perecer, ainda que o possa fazer, no dia do regresso a Lisboa.

No apartamento, quando comia fruta e preparava uma mistela proteica de tofu fumado, com nozes em vácuo, azeitonas verdes, farripas de brinza, e tomate cereja, com rega de azeite, provei, com surpresa, uma água com gás, que tinha um travo salgado e muito curioso, que me agradou. Aprontei-me depois para a visita às caves de vinhos de Milleşti Mici (lê-se Milechti Mitchi), já em cima da hora.

O lindíssimo jardim central de Chisinau ficava em frente ao apartamento e deu-me uma paz e serenidade que não é habitual, nalgumas das minhas viagens de verão. Apelei às minhas expetativas, para se alinharem com a escolha contida que fiz, de estar num país e cidade tranquilos, de relativa proximidade civilizacional, ainda que já me tenha espantado com locais também pacíficos, em países infames.

Quando cheguei à estação central de autocarros, ainda pensei em ir de mashrutka (carrinha de transportes dos países da ex-União Soviética), mas não dava tempo de chegar à excursão, por isso, chamei um Go Yandex, que estimava antecipadamente 192 lei (9€) de viagem, até às caves de vinhos. O condutor enviou-me uma mensagem, dizendo que eram 600 lei e de imediato cancelei a viagem. Apanhei um táxi por 300 lei. Impressionante, a vigarice de um condutor de TVDE, na Moldova.

Cheguei a Mileştii Mici 5 minutos antes dos carros da excursão arrancarem, ao meu puro estilo em cima da hora. A guia da excursão, em jeito de general, confirma os nomes e arrancamos túneis adentro, entrando nas mais inesperadas e impressionantes caves de vinho, que poderia imaginar. O frio (14°C) e humidade (85%) eram notórios, não me arrependendo, porém, de não ter vindo agasalhado. Aliás, havia cobertores finos disponíveis, que foram suficientes para me confortar, com a cabeça a refrescar, sabendo-me lindamente.

São 55 quilómetros contínuos, de túneis subterrâneos, com 1,5 milhões de garrafas, que amadurecem nas melhores condições possíveis e à prova de terramotos. A guia assegurou que, apesar da Moldova ter ocasionais tremores de terra, as caves de Mileştii Mici sempre se aguentaram. Orgulhou-me, ouvir da guia, que a cortiça das rolhas é portuguesa. Quer antes, quer no início da excursão, previ haver algum pânico claustrofóbico, que afinal se desvaneceu, durante a excitação de ver e sentir os carros endiabrados, pelos cotovelos subterrâneos e de partilhar alegrias com outros visitantes.

Confesso que pensava haver mais tempo de visita, antes da comida, que afinal se intercalava com a prova dos vinhos. Como escolhi um pacote mais exclusivo, tive direito a uma refeição mais abundante, o que por outro lado me fez estranhar o isolamento, em relação a outros visitantes. Havia dois tipos palestinianos de Israel, com quem falei de esguelha e interagi muito agradavelmente, renovando diversos convites em virem a Portugal.

O primeiro vinho era um branco Sauvignon Blanc, de 2025, não desiludindo assim tanto, dado eu esperar a baixa fasquia da sua degustação. Cheiroso e manhoso de doçura e sustento no paladar, sendo adequado a circunstâncias mais impulsivas e não a apreciações mais profundas e essenciais. O segundo branco era um majestoso 1987, com uma secura e nobreza opostas à intrepidez fútil do anterior. Foi sensata a escolha do rosé, a seguir, para que os sentidos pudessem ter apreciado com mais plenitude o auge da prova, que foi o segundo branco.

Da comida ali disponível, destaco as folhas de videira, recheadas com arroz, que também encontramos na Turquia e no Cáucaso, galantines com azeitonas, que ligavam também muito bem com a rega e os sarmale, folhados excecionais, típicos da Moldova, recheados em versões diferentes, com batata esmagada e também com couves amargas (sauerkraut), parecidos com o burek argelino, mas menos estaladiços, bem como com o strudel húngaro.

O primeiro tinto, Merlot, nem precisou de muita adjetivação, com uma doçura exagerada e plena de manha, para delícia do público afeto a estes tintos imediatos. Não me encaixava num prato principal, nem numa sobremesa, valendo, logo a seguir, o tinto 1988, excecional, que salvou as expetativas da prova, com uma harmonia mais consensual, com a sua suposta vocação de sustentar um repasto mais consistente.

O vinho de sobremesa foi o meu segundo preferido, encarando-o num propósito mais específico, ao enquadrar-se com um doce discreto e não demasiado intenso, além de relativizar a sua distância em relação a um vinho de prato principal. Feitas as contas e as relativizações, superou o segundo tinto. O espumante estava muito ajustado nos aromas levemente ácidos, que se interligavam bem com um toque timidamente “sacaroso”, que aguentava bem o bolo de chocolate da sobremesa. Esperava sinceramente mais deste evento, mas mesmo assim, saldei-o positivamente.

Estive algum tempo no apartamento, a debater-me entre uma noite contida ou uma noite generosa, tendo escolhido a segunda versão. Cheguei ao bar de rock Rockovoy e senti-me em casa, com a habitual parafernália de referências aos principais artistas da onda, com destaque para uma foto do cartaz do concerto de Black Sabbath, minha banda preferida, em Nova Iorque, na digressão de 1975, do soberbo álbum Sabotage.

Mudei depois para uma toada mais glamourosa e fui ao Covor, suposto bar de cocktails mais renomado de Chisinau. Tinha ótimo aspeto, não necessariamente opulento, mas de uma ténue sofisticação industrial. Pedi um cocktail apaixonante, que bebemos para celebrar a vida, com ternura: Inima Nucatei. Licor de noz, vermute rosso, Campari, romã e noz envolvida em chocolate, por cima do cubo de gelo. Sem palavras! Segui para um bar, parecido com a Pensão Amor, no Cais do Sodré, em Lisboa, misturando som comercial com som improvável e desconhecido. Ouvi o clássico do dance kitsch, Dragostea Din Tei, dos O-Zone, que fez furor mundialmente, em 2003, continuando a conquistar novas gerações, com a sua assumida faceta pirosa e bem disposta.

Segui para uma discoteca, no mais puro estilo piroso armado em sofisticado, uma espécie de Lux Frágil, com curadoria sonora de um músico pimba, super divertida e nada de se levar a sério. Em frente, havia um clube de karaoke, de aspeto muito cuidado, minimal, elegante e bem apetecível, de se passar o resto da noite. Pedi para cantar a épica power ballad dos Meat Loaf, I’d Do Anything For Love (But I Won’t Do That). A tromba de leste europeu do animador do karaoke, dizendo que levaria uma hora, para que eu cantasse, pôs-me em sentido. Na verdade, esperei duas horas, de cara a cara, a olhar para o animador, próximo de cantar, com ar de quem sabe que foi engrupido por ele, que deixou passar imensa gente à minha frente.

De êxitos ultra pimba, a hip-hop do mais gângster demoníaco que pode haver, fiquei a conhecer bastante dos extremos musicais russos. Os moldavos dividem-se em pró-romenos e pró-russos. Naquele bar, senti a Rússia em peso, até que um tipo moldavo e um israelita, cinquentões como eu, olharam para o ecrã e ficaram espantados, levando com uns devil horns meus, saudando o momento de rockalhada que estava para vir. O animador pôs uma versão mais aguda desta canção, quase fazendo estoirar as minhas cordas vocais, saindo bem, no entanto, embora em dificuldades para cantar o estrondoso semi-falsete da Lorraine Crosby. Tinha sido a primeira vez que a cantei, com a malta cota a cumprimentar-me, no fim e em alívio quase diurno, com a luz do dia em perspetiva. A tromba do animador de karaoke fez lembrar a do guarda fronteiriço do vídeo da Nikita, do Elton John, quando lhe dá a nega.

Com ópera rock encerrei um dia pleno de vida!

29/07/2026

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