07/06/2026
Reconhecimento Batchart: "Di Pov Pa Sirvi Pov"
Ontem, no CVMA, testemunhámos um momento que ficará gravado na memória de São Vicente e de todo o nosso país. O rapper Batchart, foi justamente premiado com o Prémio Responsabilidade Social.
Mas este não é um prémio qualquer. É o reconhecimento de um trabalho que se faz no silêncio, no suor, na lama, no corpo-a-corpo com a dor do próximo. É o reconhecimento de quem não ficou apenas nas letras das suas músicas, mas desceu do palco e meteu as mãos na massa.
Todos nós ainda lembrámos das chuvas torrenciais de agosto de 2025, que fustigaram a nossa ilha, que destruíram vidas, moradias, esperanças. E onde estava Batchart? No meio do povo. De enxada e pá na mão. A desobstruir vias soterradas, a reconstruir casas derrubadas, a estender a mão a quem tinha perdido quase tudo. Não como uma celebridade atrás de engajamento, mas como um homem do povo, junto com o povo. Na lama, no cansaço, na partilha da mesma dor e da mesma luta.
Mas ontem, ao receber o prémio, Batchart não se limitou a agradecer. Teve coragem. Esteve à altura. Fez perguntas que muitos calam, que muitos fingem não ouvir. E a mais cortante de todas, aquela que ecoa hoje em cada rua, em cada conversa de Mindelo:
"Para onde foi o dinheiro arrecadado através dosofrimento de São Vicente?"
Uma pergunta tão simples, tão direta, tão necessária. Porque todos nós, são-vicentinos, sabemos que houve arrecadação. Todos vimos os apelos, as campanhas, os donativos que chegaram de dentro e de fora. Dinheiro do vizinho, do amigo, do familiar que apertou o seu próprio bolso para ajudar quem mais precisava. E esse dinheiro onde é que ele parou?
Batchart fez a pergunta de todos em São Vicente. A pergunta que arde na boca de quem perdeu tudo e ainda espera. A pergunta que incomoda, que mexe com estruturas, que tira o sono a quem tem contas a prestar. E ele fez isso no palco, no momento da sua premiação, porque essa homenagem só tem sentido se vier acompanhada da verdade e da justiça.
Reconhecemos e agradecemos o Batchart por não ter ficado indiferente, por teres ido para o terreno quando as águas ainda não tinham baixado.
És um exemplo raro. Um artista que não se esqueceu de onde veio. Um líder que não se coloca acima, mas ao lado. Um cidadão que exige, mas o primeiro a fazer.
A tua pergunta ficou no ar. Mas não vai cair no chão. Nós, são-vicentinos, vamos repeti-la até que uma resposta séria, transparente e justa seja dada.
Para onde foi o dinheiro do nosso sofrimento?
Batchart, o teu prémio é nosso. A tua luta é nossa. E a tua pergunta, hoje, é a pergunta de São Vicente inteira.