17/08/2026
BENDS — A DOENÇA DAS CURVAS
Você já parou para pensar de onde veio o termo “Bends”, tão conhecido no mundo do mergulho?
Essa história começa no século XIX, muito antes dos computadores de mergulho, das câmaras hiperbáricas modernas e de todo o conhecimento que temos hoje sobre descompressão.
Durante a construção da Ponte do Brooklyn, nos Estados Unidos, trabalhadores passavam horas dentro de enormes caixões pneumáticos, estruturas pressurizadas que permitiam trabalhar no fundo do rio.
Ao deixar esses ambientes sob pressão e retornar à pressão atmosférica, muitos trabalhadores apresentavam fortes dores, principalmente nas articulações, além de outros sintomas graves. Alguns f**avam andando encurvados por causa das dores.
Essa postura lembrava uma moda feminina americana muito popular entre as décadas de 1860 e 1870, conhecida como “Grecian Bend”. A semelhança acabou dando origem ao termo “Bends”, utilizado para descrever a doença descompressiva — a chamada doença das curvas.
Mas essa história não ficou nos caixões da Ponte do Brooklyn.
Com o desenvolvimento do mergulho, a mesma questão passou a fazer parte da rotina de milhares de profissionais que trabalham sob pressão.
A doença descompressiva pode estar relacionada tanto ao mergulho com ar comprimido, como em operações de menor profundidade, quanto ao mergulho profundo com misturas gasosas, utilizado em operações que podem alcançar grandes profundidades.
Ou seja: não é uma doença restrita a uma única modalidade de mergulho.
Ela pode fazer parte da realidade de diferentes categorias e profissionais do mergulho — desde aqueles que trabalham em operadoras e passam grande parte do tempo na água, como Dive Masters, até os profissionais envolvidos em operações profundas e de maior complexidade.
E existe um ponto que precisa ser lembrado:
Mesmo com todo o aparato que temos atualmente — tabelas, computadores de mergulho, câmaras hiperbáricas, protocolos e equipamentos modernos — o mergulhador continua suscetível aos efeitos da pressão e da descompressão.
E algumas consequências podem aparecer muito tempo depois.
A osteonecrose disbárica pode permanecer assintomática, principalmente em suas fases iniciais. Isso signif**a que podem existir alterações ósseas sem que o mergulhador apresente dor ou qualquer sinal evidente naquele momento. Estudos médicos publicados no PubMed descrevem justamente essa possibilidade e mostram a importância dos exames de imagem para a identif**ação dessas alterações.
Na Classif**ação Internacional de Doenças — CID-10, da Organização Mundial da Saúde, encontramos:
T70.3 — Mal dos caixões [doença de descompressão].
E existe também uma classif**ação específ**a para a consequência óssea:
M90.3 — Osteonecrose em “mal dos caixões”.
A CID é uma classif**ação internacional da Organização Mundial da Saúde, e não uma classif**ação criada especif**amente pelo Brasil.
A PRESSÃO TAMBÉM DEIXA MARCAS NA NATUREZA
E aqui aparece uma parte fascinante dessa história.
A questão da pressão não envolve somente o ser humano.
Mamíferos marinhos, como as baleias, possuem adaptações fisiológicas extraordinárias para realizar mergulhos profundos. Eles nasceram adaptados para esse ambiente e desenvolveram mecanismos naturais que reduzem muito os efeitos da pressão.
Em estudos realizados depois da morte de alguns desses animais, pesquisadores encontraram algo impressionante em seus ossos.
Em um estudo com 16 cachalotes, foram encontradas lesões de osteonecrose em diferentes estruturas ósseas. Os pesquisadores observaram que essas lesões aumentavam de acordo com o tamanho dos animais e consideraram o disbarismo uma explicação provável para os achados.
Mais recentemente, um estudo publicado em 2025 examinou cinco baleias-piloto encalhadas utilizando tomografia computadorizada e análise histológica. Em três dos animais foram identif**adas lesões ósseas compatíveis com osteonecrose disbárica.
E é justamente aqui que existe uma diferença fascinante entre nós e esses animais.
Nós não temos as mesmas adaptações fisiológicas desses animais. O ser humano não evoluiu para viver sob as enormes pressões das profundidades. Precisamos recorrer à tecnologia, aos equipamentos, aos procedimentos e ao conhecimento acumulado pela medicina do mergulho para realizar essas atividades. Mesmo assim, nosso organismo continua suscetível aos efeitos da pressão e da descompressão, inclusive à dor e às consequências tardias que podem atingir os ossos.
Esses animais, por outro lado, desenvolveram ao longo da evolução mecanismos naturais extraordinários para suportar o ambiente de grandes profundidades. É justamente essa diferença que torna tão interessante o estudo de seus organismos e de seus ossos.
E foi justamente através desses estudos que a ciência encontrou, depois da morte de alguns desses animais, alterações ósseas compatíveis com osteonecrose disbárica. São marcas que permanecem registradas nos ossos depois de uma vida inteira submetida às enormes variações de pressão do ambiente marinho.
Isso mostra como a pressão pode deixar marcas profundas no organismo — tanto no ser humano quanto em animais que passaram milhões de anos desenvolvendo adaptações para viver e mergulhar nesse ambiente.
UM LEMBRETE PARA QUEM TRABALHA COM MERGULHO
A história dos Bends não é apenas uma história antiga dos trabalhadores dos caixões pneumáticos.
Ela faz parte da própria história do mergulho.
Começou nas grandes obras de engenharia do século XIX, passou pelos primeiros estudos médicos sobre os efeitos da pressão e chegou ao mergulho profissional e profundo que conhecemos hoje.
Hoje temos computadores, tabelas, câmaras hiperbáricas, equipamentos modernos e muito mais conhecimento.
Mas o corpo humano continua sendo o mesmo corpo humano diante da pressão.
Por isso, conhecer essa história é também conhecer uma parte da história da nossa própria profissão.
E f**a o lembrete:
a doença descompressiva é reconhecida internacionalmente, e a osteonecrose disbárica também está registrada na Classif**ação Internacional de Doenças.
Não é apenas uma história antiga.
É uma realidade que merece ser conhecida por todos aqueles que trabalham no mergulho.
Fontes: PubMed — estudos científicos sobre doença descompressiva, osteonecrose disbárica, história da doença dos caixões e fisiologia do mergulho.
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