17/09/2026
10º FESTIVAL DA SARDINHA E FRUTOS DO MAR DE BÚZIOS: UMA HISTÓRIA DE SABOR, PESCA E CULTURA CAIÇARA
Há festas que simplesmente entram no calendário de uma cidade. Outras carregam consigo a memória de um povo, seus costumes, seus sabores e sua relação com o território. O Festival da Sardinha e Frutos do Mar de Búzios pertence a essa segunda categoria. Sua história começou em 2016, quando moradores nativos se reuniram com o propósito de criar um evento que valorizasse aquilo que fazia parte da vida de muitas famílias buzianas: o mar, a pesca, o pescado e a culinária construída ao longo de gerações. A proposta era simples, mas carregava um significado profundo: criar um festival “nosso”, com produtos locais e com a participação daqueles que conheciam, na prática, a cultura e os sabores da comunidade pesqueira de Búzios. Foi assim que nasceu a primeira edição, realizada no Campo da Sociedade Esportiva de Búzios, a SEB, dando início a uma trajetória que, dez anos depois, chega à sua décima edição.
Ao longo dos anos, o festival foi crescendo, ganhando novos participantes, novos pratos e maior presença no calendário da cidade, mas sem abandonar a ideia que esteve em sua origem: valorizar a cultura ligada ao mar. A sardinha, ingrediente aparentemente simples e tradicional, tornou-se símbolo de uma história muito maior. Por trás de cada receita existe uma relação com a pesca, com as famílias de pescadores, com as cozinheiras que aprenderam seus preparos dentro de casa e com os saberes que foram passando de uma geração para outra. Nesse processo, a participação das mulheres caiçaras possui um significado especial. São elas que, durante décadas, transformaram o pescado em alimento, desenvolveram receitas, conservaram modos de preparo e ajudaram a manter viva uma gastronomia que também é parte da identidade cultural de Búzios.
O festival também acompanhou as transformações da própria cidade. Búzios se tornou um dos destinos turísticos mais conhecidos do país, recebeu visitantes de diferentes lugares e desenvolveu uma importante economia ligada ao turismo. Entretanto, por trás dessa imagem turística existe uma história muito mais antiga, construída por comunidades que tinham no mar uma de suas principais fontes de alimento, trabalho e sobrevivência. O Festival da Sardinha e Frutos do Mar ajuda justamente a colocar essa história em evidência. Quando um visitante experimenta uma torta de sardinha, um prato de frutos do mar ou uma receita preparada por uma família local, ele não está apenas consumindo gastronomia: está entrando em contato com uma parte da história de Búzios.
Com o passar das edições, essa identidade foi ficando cada vez mais evidente. Na sétima edição, realizada em 2023, o festival já apresentava dezenas de pratos preparados pelos participantes, reunindo receitas de sardinha e diferentes frutos do mar. Em 2024, na oitava edição, histórias de participantes que estavam presentes desde o início demonstravam a capacidade do evento de preservar vínculos e memórias. Pessoas que participaram da primeira edição continuavam levando suas receitas para o festival, mantendo uma continuidade que dificilmente pode ser criada artificialmente. É justamente essa permanência das pessoas, das receitas e dos saberes que transforma um evento gastronômico em patrimônio cultural vivido.
E agora chegamos a 2026. O festival alcança sua décima edição, celebrando uma década de existência. De uma iniciativa criada por moradores para valorizar a própria cultura, transformou-se em uma tradição que reúne gastronomia, música, encontro e memória. Nos dias 18, 19 e 20 de setembro, o Campo da SEB volta a receber o público para mais uma celebração da sardinha e dos frutos do mar. Serão dezenas de pratos, preparados pelos participantes, além da programação musical que tradicionalmente acompanha o evento. Mais do que comemorar dez edições, este momento representa a continuidade de uma iniciativa que encontrou na gastronomia uma maneira de preservar e apresentar uma parte importante da identidade buziana.
Talvez essa seja uma das maiores riquezas do Festival da Sardinha: ele nos permite olhar para Búzios além da imagem turística que conhecemos atualmente. Antes dos grandes empreendimentos, dos restaurantes sofisticados e do turismo internacional, havia uma comunidade vivendo em estreita relação com o mar. Havia pescadores saindo para trabalhar, famílias esperando o pescado, mulheres preparando os alimentos e crianças aprendendo, dentro de casa, os costumes que seus pais e avós haviam aprendido antes deles. Essa história continua existindo, e eventos como o festival criam um espaço para que ela seja contada, celebrada e conhecida pelas novas gerações.
Por isso, falar do Festival da Sardinha e Frutos do Mar é falar também sobre memória. É falar sobre a pesca, sobre a culinária caiçara, sobre as famílias que ajudaram a construir Búzios e sobre a importância de preservar os saberes que não estão escritos em livros, mas que sobrevivem nas mãos de quem cozinha, pesca e ensina. A gastronomia acaba funcionando como uma espécie de ponte entre passado e presente: o sabor de uma receita pode carregar consigo a lembrança de uma família, de uma época, de um modo de vida e de uma relação com o território.
Dez anos depois, a pergunta talvez não seja apenas o que será servido no festival, mas qual história estamos colocando no prato. E a resposta está no mar, nas famílias de pescadores, nas cozinheiras caiçaras, nos produtos do território e em todos aqueles que ajudaram a construir essa trajetória. Que a décima edição seja não apenas uma comemoração, mas também uma oportunidade de reconhecer que Búzios possui uma cultura própria, anterior ao turismo e que merece continuar sendo valorizada. Porque preservar a identidade de uma cidade também significa preservar suas receitas, seus saberes, suas histórias e as pessoas que mantêm tudo isso vivo.
10º Festival da Sardinha e Frutos do Mar de Búzios. Dez anos de uma história que começou com a comunidade, atravessou gerações e continua chegando à mesa através do sabor.
18, 19 e 20 de setembro — Campo da SEB — Centro, Armação dos Búzios. 🐟🦐🌊